Deus Pai também sofreu e morreu na cruz, já que é o mesmo Deus que o Filho?
Não. A Igreja sempre rejeitou essa ideia (chamada 'patripassianismo' ou 'sabelianismo') como heresia. O Pai, o Filho e o Espírito Santo são uma só natureza divina, mas três Pessoas realmente distintas — e só o Filho assumiu uma natureza humana. Foi nessa natureza humana, e não na divina, que ele sofreu e morreu; o Pai permanece impassível, ainda que a tradição fale, num sentido não literal, de sua 'compaixão' pelo Filho sofredor.
Resposta completa
É uma confusão compreensível: se o Pai e o Filho são “um só Deus”, por que apenas o Filho sofreu na cruz? A resposta exige distinguir com cuidado duas coisas que a fé católica afirma ao mesmo tempo, sem contradição: o Pai, o Filho e o Espírito Santo compartilham uma única e mesma natureza divina, mas são três Pessoas realmente distintas entre si — o Pai não é o Filho, o Filho não é o Espírito Santo.
Foi apenas o Filho — a segunda Pessoa da Trindade — que assumiu uma natureza humana verdadeira e completa na Encarnação, “sem confusão nem mudança” da sua divindade (fórmula do Concílio de Calcedônia, 451). Foi nessa natureza humana que ele nasceu, sofreu, morreu e ressuscitou. A natureza divina, que ele continua a compartilhar plenamente com o Pai, não sofre nem morre — Deus, enquanto Deus, é impassível.
A ideia de que o próprio Pai teria sofrido na cruz (às vezes chamada “patripassianismo”) foi rejeitada como heresia já nos primeiros séculos, associada a teólogos como Sabélio (daí também “sabelianismo”), que tendiam a tratar Pai, Filho e Espírito Santo como três “máscaras” ou modos sucessivos de um único Deus, e não como Pessoas realmente distintas. A Igreja sempre insistiu no contrário: a distinção das Pessoas é real, mesmo permanecendo uma só a natureza divina.
Isso não significa que o Pai seja indiferente à cruz. A tradição sempre falou de uma “compaixão do Pai” (compassio Patris) diante do sofrimento do Filho — mas num sentido de proximidade e amor, não de sofrimento literal e físico da natureza divina. O próprio Concílio de Constantinopla II (553) aprovou a fórmula de que “um da Trindade sofreu na carne” — mas especificando quem: o Filho, na carne que assumiu, e não o Pai nem o Espírito Santo.
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Fontes citadas
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A Igreja Católica crê em um único Deus que existe em três Pessoas distintas — Pai, Filho e Espírito Santo — cada uma plenamente Deus, sem serem três deuses nem três partes de um só Deus. É o mistério central da fé cristã, que a razão humana não deduz sozinha, mas recebe por revelação.
A Igreja ensina que Jesus Cristo é uma única Pessoa divina que possui, verdadeira e completamente, duas naturezas — a divina e a humana —, sem confusão nem separação entre elas. As experiências humanas de Jesus (fome, cansaço, choro, sofrimento, limitação de conhecimento humano) pertencem realmente a ele, na sua natureza humana, sem que isso diminua sua verdadeira divindade.
Sim: a presciência divina não é como uma previsão humana no tempo, mas o conhecimento de um Deus que vive fora do tempo e vê toda a história — passado, presente e futuro — de uma só vez, num "eterno presente". Deus conhecer livremente o que escolheremos não é a mesma coisa que forçar essa escolha.