Santo Agostinho
O servo que não quis perdoar
Bispo de Hipona, Doutor da Igreja (354–430) · Sermão 83, Sobre as palavras do Evangelho de Mateus (cf. Sermo 83, De verbis Evangelii Matthaei, cap. 18)
"Agostinho observa o contraste da parábola: uma dívida impagável de dez mil talentos é perdoada de graça, mas o mesmo servo perdoado não suporta esperar por cem denários de um companheiro. Quem já recebeu o perdão de uma dívida infinita, adverte Agostinho, não tem justificativa alguma para negar um perdão infinitamente menor a quem lhe deve."
Agostinho dedicou um sermão inteiro a esta parábola, provavelmente pregado diante do povo de Hipona em algum momento de seu longo ministério episcopal, e sua leitura tornou-se referência obrigatória na tradição latina sobre o tema do perdão. Ele chama atenção para a desproporção deliberada da história: dez mil talentos era uma soma astronômica, equivalente a milhões de denários — uma dívida que nenhum servo poderia, realisticamente, algum dia pagar —, enquanto cem denários era uma quantia modesta, pagável em poucos meses de trabalho.
É justamente essa desproporção, explica Agostinho, que revela a gravidade do comportamento do servo perdoado: ele não apenas se recusa a ter a mesma compaixão recebida, mas usa de violência com o companheiro por uma dívida infinitamente menor que a sua. Agostinho aplica a lição diretamente à petição do Pai Nosso — “perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos” — lembrando que essa mesma oração, rezada sem sinceridade no coração, torna-se antes acusação do que súplica. Para Agostinho, ninguém mede corretamente o perdão que recebeu de Deus até medir, com a mesma generosidade, o perdão que está dando aos outros.
Fontes: Catecismo da Igreja Católica §2843, sobre o perdão como resposta ao perdão já recebido de Deus · Santo Agostinho, Sermones ad populum, Sermo 83, Patrologia Latina 38