Ave Maris Stella (Salve, Estrela do Mar)
Hino tradicional das Vésperas em festas e memórias marianas, na Liturgia das Horas
Ave, maris stella, Dei Mater alma, atque semper Virgo, felix caeli porta. Sumens illud "Ave" Gabrielis ore, funda nos in pace, mutans Evae nomen. Solve vincla reis, profer lumen caecis, mala nostra pelle, bona cuncta posce. Monstra te esse matrem, sumat per te preces, qui pro nobis natus tulit esse tuus. Virgo singularis, inter omnes mitis, nos culpis solutos, mites fac et castos. Vitam praesta puram, iter para tutum, ut videntes Iesum, semper collaetemur. Sit laus Deo Patri, summo Christo decus, Spiritui Sancto, tribus honor unus. Amen.
Salve, Estrela do Mar, Mãe alma de Deus e sempre Virgem, porta feliz do céu. Recebendo aquele "Ave" da boca de Gabriel, firma-nos na paz, trocando o nome de Eva. Rompe as cadeias dos réus, dá luz aos cegos, afasta os nossos males, alcança-nos todo bem. Mostra que és nossa mãe, apresenta as nossas preces a quem, nascido por nós, quis ser teu Filho. Ó Virgem singular, entre todas a mais mansa, livres já da culpa, faze-nos mansos e castos. Concede-nos vida pura, prepara-nos caminho seguro, para que, vendo Jesus, nos alegremos sempre contigo. Louvor a Deus Pai, glória ao Cristo altíssimo, ao Espírito Santo, uma só honra aos três. Amém.
Divisão em partes
"Salve, Estrela do Mar, Mãe alma de Deus e sempre Virgem, porta feliz do céu"
A primeira estrofe concentra três títulos marianos centrais: Mãe de Deus (Theotokos), sempre Virgem, e "porta do céu" — imagem de Maria como aquela por quem Cristo entrou no mundo.
Ecoa a saudação de Isabel a Maria: "bendita és tu entre as mulheres" (Lucas 1,42).
Retoma a definição do Concílio de Éfeso (431) sobre Maria como Theotokos, "Mãe de Deus" (Catecismo §495), fundamento de todos os demais títulos marianos do hino.
"Recebendo aquele 'Ave' da boca de Gabriel, firma-nos na paz, trocando o nome de Eva"
Um dos versos mais comentados do hino: em latim, "Ave" invertido soa como "Eva" — jogo de palavras que resume a antiga tipologia patrística de Maria como "nova Eva".
Relaciona-se com Gênesis 3,15, o "protoevangelho", que anuncia a inimizade entre a serpente e "a mulher" e sua descendência.
Recupera a tipologia já presente em Santo Irineu de Lion (séc. II): assim como Eva, por descrença, trouxe a morte, Maria, por sua fé, coopera para a vida (Catecismo §494).
"Ó Virgem singular, entre todas a mais mansa, livres já da culpa, faze-nos mansos e castos"
O hino pede que a mansidão e a pureza de Maria se tornem, pela sua intercessão, também virtudes vividas por quem reza.
Recorda a bem-aventurança "bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra" (Mateus 5,5).
Reflete a compreensão de Maria como "modelo de virtudes" para toda a Igreja (Catecismo §967), não apenas objeto de veneração distante.
Contexto histórico
De autoria anônima, o hino é datado por volta dos séculos VIII-IX, sendo um dos cânticos marianos mais antigos ainda em uso corrente na liturgia latina. Foi incorporado às Vésperas do Ofício Mariano e é cantado, até hoje, em festas e memórias de Nossa Senhora na Liturgia das Horas. Inspirou numerosas composições musicais ao longo da história — de cantochão gregoriano a obras polifônicas — e deu nome, entre outras coisas, à tradicional invocação de Maria como "Estrela do Mar", ligada à etimologia popular (hoje contestada por linguistas) que aproximava o nome "Maria" da expressão latina "stilla maris" ou "stella maris".
Significado espiritual
O hino desenvolve um jogo de palavras caro à tradição patrística: o anjo saúda Maria com "Ave", que lido de trás para frente é "Eva" — Maria é, assim, a nova Eva, cujo "sim" desfaz o "não" da desobediência original e restaura a paz entre Deus e a humanidade. Cada estrofe pede a Maria um aspecto da vida cristã: libertação, luz, pureza, intercessão e, por fim, a alegria eterna de "ver Jesus" ao lado dela.