Símbolo Atanasiano (Quicumque)
Conhecido pela primeira palavra do texto latino, "Quicumque [vult]"
Quicumque vult salvus esse, ante omnia opus est ut teneat catholicam fidem. Quam nisi quisque integram inviolatamque servaverit, absque dubio in aeternum peribit. Fides autem catholica haec est: ut unum Deum in Trinitate, et Trinitatem in unitate veneremur. Neque confundentes personas, neque substantiam separantes. Alia est enim persona Patris, alia Filii, alia Spiritus Sancti. Sed Patris, et Filii, et Spiritus Sancti una est divinitas, aequalis gloria, coaeterna maiestas.
Todo aquele que quer salvar-se deve, antes de tudo, professar a fé católica. Fé que, se alguém não guardar íntegra e inviolada, sem dúvida perecerá para sempre. A fé católica é esta: que veneremos um só Deus na Trindade, e a Trindade na unidade. Sem confundir as pessoas, nem separar a substância. Pois uma é a pessoa do Pai, outra a do Filho, outra a do Espírito Santo. Mas do Pai, do Filho e do Espírito Santo há uma só divindade, igual glória, coeterna majestade.
Divisão em partes
"Todo aquele que quer salvar-se deve, antes de tudo, professar a fé católica"
Abre afirmando que a reta fé sobre Deus não é um detalhe acadêmico, mas está ligada ao próprio sentido da salvação cristã.
João 17,3: "a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, que enviaste".
Reflete a convicção patrística de que conhecer corretamente quem é Deus (ortodoxia) e viver de acordo com essa verdade estão intimamente ligados.
"Que veneremos um só Deus na Trindade, e a Trindade na unidade, sem confundir as pessoas, nem separar a substância"
Formula o núcleo do dogma trinitário com precisão quase matemática: unidade de substância, distinção real de pessoas.
2 Coríntios 13,13: a bênção final paulina já nomeia lado a lado "a graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo".
É exatamente a fórmula que o Concílio de Niceia (contra o arianismo) e os debates posteriores (contra o sabelianismo, que confundia as pessoas) buscaram fixar com precisão.
"Uma é a pessoa do Pai, outra a do Filho, outra a do Espírito Santo — mas uma só divindade, igual glória, coeterna majestade"
Nega tanto que as três pessoas sejam a mesma coisa (modalismo) quanto que sejam três deuses (triteísmo) ou desiguais entre si (subordinacionismo, como no arianismo).
João 1,1: "o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus" — já no início do quarto Evangelho, a igualdade divina do Filho está afirmada.
"Coeterna majestade" é decisiva contra qualquer leitura que veja o Filho ou o Espírito Santo como posteriores ou inferiores ao Pai.
Contexto histórico
Apesar do nome tradicional, a pesquisa histórica moderna considera muito improvável que Santo Atanásio (que escrevia em grego, não em latim) seja o autor real deste texto — provavelmente composto na Gália, entre os séculos V e VI, refletindo a teologia trinitária e cristológica já consolidada depois dos Concílios de Niceia (325), Constantinopla (381) e Éfeso/Calcedônia (431/451). Foi amplamente rezado no Ofício Divino ocidental ao longo da Idade Média, e continua sendo um dos três grandes credos históricos da tradição cristã latina, ao lado do Símbolo dos Apóstolos e do Niceno-Constantinopolitano.
Significado espiritual
Diferente dos outros dois credos, mais narrativos, o Atanasiano é quase um tratado dogmático versificado — repete, formula e reformula a mesma verdade central sob vários ângulos, como quem sabe que a distinção entre pessoa e substância na Trindade é fácil de errar por excesso (confundir as pessoas) ou por defeito (separar a substância). Rezá-lo é um exercício de precisão teológica orante, não apenas devocional.