Os católicos acreditam que só a Bíblia é a Palavra de Deus, ou existe outra fonte de revelação?
A Igreja Católica ensina que a única revelação de Deus chega até nós por dois canais inseparáveis, que brotam da mesma fonte: a Sagrada Escritura (a Bíblia) e a Sagrada Tradição (o depósito vivo da fé transmitido pelos apóstolos). Diferente da ideia protestante de 'somente a Escritura' (sola Scriptura), o catolicismo não vê Bíblia e Tradição como duas fontes concorrentes, mas como dois modos de transmitir a mesma revelação.
Resposta completa
Uma das diferenças doutrinais mais importantes entre catolicismo e várias tradições protestantes está aqui — e vale entender por que a Igreja Católica não adota o princípio da “sola Scriptura” (somente a Escritura).
O que diz o Concílio Vaticano II: o documento Dei Verbum (“Palavra de Deus”, 1965) resume assim: “a Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura constituem um único depósito sagrado da Palavra de Deus”, e “não brotam da mesma fonte, para caminharem para o mesmo fim, senão como um só rio” (§9-10, parafraseado). Ou seja: não são duas revelações diferentes, mas dois modos pelos quais a mesma revelação apostólica chegou até nós — uma por escrito (a Bíblia), outra pela pregação viva, celebração litúrgica e prática transmitida de geração em geração na Igreja.
Por que a própria Bíblia sugere isso: São Paulo escreve aos Tessalonicenses: “mantende-vos firmes e conservai os ensinamentos que aprendestes, quer de viva voz, quer por carta nossa” (2 Ts 2:15) — ou seja, o próprio Novo Testamento reconhece que nem tudo o que os apóstolos ensinaram foi posto por escrito. O Evangelho de João termina de forma semelhante: “há ainda muitas outras coisas que Jesus fez; se fossem escritas uma a uma, penso que nem o mundo inteiro poderia conter os livros que se escreveriam” (Jo 21:25).
E quem decide o que é Tradição autêntica? Aqui entra o terceiro elemento, inseparável dos dois primeiros: o Magistério da Igreja — o ofício de ensinar exercido pelo Papa e os bispos em comunhão com ele — que não está acima da Palavra de Deus, mas a seu serviço, interpretando-a com autoridade e guardando-a fielmente ao longo dos séculos (Catecismo §85-87). Foi esse mesmo processo — Tradição viva e discernimento eclesial — que, nos primeiros séculos, definiu quais livros fariam parte do cânon bíblico.
Um jeito simples de entender: a Bíblia nasceu de dentro da Tradição viva da Igreja (foi a Igreja que reconheceu e reuniu os livros inspirados), e continua sendo lida, interpretada e vivida dentro dessa mesma Tradição — não como fonte independente e autossuficiente, separada da comunidade de fé que a gerou.