Adsumus, Sancte Spiritus (Prece ao Espírito Santo antes de reuniões e concílios)
Rezada na abertura de cada sessão do Concílio Vaticano II (1962-1965) e retomada nas assembleias do Sínodo dos Bispos
Adsumus, Sancte Spiritus, adsumus peccati quidem immanitate detenti, sed in nomine tuo specialiter congregati. Veni ad nos, et esto nobiscum, et dignare illabi in corda nostra. Doce nos quid agere, quo gradi debeamus, et ostende quid efficere debeamus, ut, te auxiliante, in omnibus tibi placere valeamus. Esto solus suggestor et effector iudiciorum nostrorum, qui solus cum Deo Patre et eius Filio nomen possides gloriosum. Non nos patiaris perturbatores esse iustitiae, qui summam diligis aequitatem; ne ignorantia nos ducat in devium, ne favor influat, ne acceptio muneris vel personae interveniat; sed iunge nos tibi efficaciter solius tuae gratiae dono, ut simus in te unum et in nullo deviemus a vero; quatenus in nomine tuo collecti, sic in cunctis teneamus cum moderamine pietatem iustitiae, ut hic a te in nullo dissentiat sensus noster, et in futuro, pro bene gestis, consequi mereamur praemia sempiterna. Amen.
Nós Vos apresentamos, Espírito Santo: estamos reunidos em vosso nome, ainda que retidos pela gravidade dos nossos pecados. Vinde a nós, permanecei conosco, e dignai-Vos descer aos nossos corações. Ensinai-nos o que devemos fazer, para onde devemos caminhar, e mostrai-nos o que devemos realizar, para que, com o vosso auxílio, possamos em tudo Vos agradar. Sede Vós o único inspirador e realizador dos nossos julgamentos, Vós que, só, possuís com o Pai e o seu Filho um nome glorioso. Não permitais que sejamos perturbadores da justiça, Vós que amais a suprema equidade; que a ignorância não nos desvie, que a parcialidade não nos influencie, que a aceitação de pessoas ou de interesses não intervenha; mas uni-nos a Vós eficazmente, pelo dom só da vossa graça, para que sejamos um só em Vós e em nada nos afastemos da verdade; de modo que, reunidos em vosso nome, guardemos em tudo, com moderação, a justiça unida à piedade, para que aqui o nosso pensamento em nada Vos contrarie, e para que, no futuro, pelo bem realizado, mereçamos alcançar as recompensas eternas. Amém.
Divisão em partes
"Nós Vos apresentamos, Espírito Santo... estamos reunidos em vosso nome, ainda que retidos pela gravidade dos nossos pecados"
A oração começa reconhecendo a condição pecadora de quem reza, sem que isso impeça a reunião "em nome" do Espírito — não é a santidade prévia do grupo que garante a assistência divina, mas a invocação sincera.
Recorda o modelo do primeiro concílio, em Jerusalém, cuja decisão é atribuída conjuntamente ao Espírito Santo e à assembleia (Atos 15,28).
Ecoa a promessa de Cristo de estar presente "onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome" (Mt 18,20), estendida aqui à ação do Espírito Santo sobre deliberações eclesiais.
"Ensinai-nos o que devemos fazer... para que, com o vosso auxílio, possamos em tudo Vos agradar"
O pedido central não é por uma resposta pronta, mas pela capacidade de discernir o caminho certo — a oração pede luz para o processo de decisão, não apenas um resultado.
Recorda a promessa de Jesus de que o Espírito "vos ensinará todas as coisas" (Jo 14,26).
Reflete a doutrina do Espírito Santo como "alma" que anima e guia a Igreja em suas decisões históricas (Catecismo §797), sem substituir a responsabilidade humana de deliberar.
"Não permitais que sejamos perturbadores da justiça... uni-nos a Vós eficazmente, pelo dom só da vossa graça, para que sejamos um só em Vós"
A oração nomeia explicitamente os riscos de toda deliberação humana — ignorância, favoritismo, interesse pessoal — e pede que a unidade do grupo venha da graça do Espírito, não apenas do consenso humano.
Reflete o ideal descrito em Atos 4,32, da primeira comunidade cristã, que "tinha um só coração e uma só alma".
Une-se à oração sacerdotal de Jesus por seus discípulos, "para que todos sejam um" (Jo 17,21), aplicada aqui ao concreto de uma assembleia deliberativa da Igreja.
Contexto histórico
Esta prece pela assistência do Espírito Santo em reuniões e deliberações eclesiais é atribuída, por tradição antiga, a Santo Isidoro de Sevilha (c. 560–636), doutor da Igreja, embora sua forma definitiva date provavelmente de séculos posteriores, tendo circulado amplamente na liturgia medieval de sínodos e concílios locais. Ganhou notoriedade mundial ao ser rezada na abertura de cada uma das quatro sessões do Concílio Vaticano II (1962-1965), e voltou a ganhar destaque quando o Papa Francisco a recomendou como oração oficial de abertura das assembleias do Sínodo dos Bispos sobre a Sinodalidade (2021-2023).
Significado espiritual
É uma oração de discernimento comunitário: pede-se ao Espírito Santo não apenas inspiração individual, mas a graça de que um grupo reunido em nome de Cristo pense e delibere "como um só", livre de parcialidade, interesse próprio ou pressa. Por isso tornou-se modelo de toda tentativa católica de tomar decisões importantes — do conselho paroquial ao concílio ecumênico — sob a ação do Espírito, e não apenas da vontade humana.