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Séc. XIII · Hino Eucarístico de Santo Tomás de Aquino

Pange Lingua Gloriosi Corporis Mysterium (hino eucarístico completo)

Composto por Santo Tomás de Aquino a pedido do Papa Urbano IV para o Ofício da festa de Corpus Christi (1264)

Canta, ó língua, o mistério do Corpo glorioso e do Sangue precioso, que, como preço do mundo, o fruto de um ventre generoso, o Rei das nações derramou. A nós dado, para nós nascido de uma Virgem intacta, e no mundo tendo vivido, espalhada a semente da Palavra, encerrou o tempo de sua estada com admirável desígnio. Na noite da última ceia, reclinado com os irmãos, observada plenamente a lei quanto aos alimentos legais, com as próprias mãos se dá como alimento aos doze. O Verbo feito carne, por sua palavra faz do pão verdadeira carne; e o vinho se torna Sangue de Cristo; e, se os sentidos falham, basta a fé para firmar o coração sincero. A um tão grande Sacramento veneremos, pois, prostrados; e ceda o antigo rito ao novo; supra a fé o que falta aos sentidos. Ao Pai e ao Filho seja dado louvor e júbilo, saudação, honra e também virtude e bênção; e ao que de ambos procede, igual louvor. Amém.

Divisão em partes

"Canta, ó língua, o mistério do Corpo glorioso e do Sangue precioso, que, como preço do mundo, o fruto de um ventre generoso, o Rei das nações derramou"
Explicação

Abre anunciando o tema do hino inteiro: o Corpo e o Sangue de Cristo, entregues como "preço" (resgate) pela salvação de todos os povos, não só de Israel.

Contexto bíblico

1Timóteo 2,6: Cristo "se entregou a si mesmo em resgate por todos".

Significado teológico

A expressão "preço do mundo" retoma a linguagem bíblica do resgate (redenção), central à compreensão católica do sacrifício de Cristo como pagamento que liberta a humanidade do pecado.

"O Verbo feito carne, por sua palavra faz do pão verdadeira carne; e o vinho se torna Sangue de Cristo; e, se os sentidos falham, basta a fé para firmar o coração sincero"
Explicação

O núcleo doutrinal do hino: assim como o Verbo se fez carne na Encarnação, sua palavra (repetida pelo sacerdote na consagração) transforma realmente o pão e o vinho, mesmo que os sentidos continuem percebendo apenas aparência de pão e vinho.

Contexto bíblico

João 1,14: "o Verbo se fez carne e habitou entre nós".

Significado teológico

Formulação poética exata da doutrina da transubstanciação, mais tarde definida com esse termo técnico pelo próprio Santo Tomás de Aquino em sua obra teológica e confirmada pelo Concílio de Trento (Catecismo §1376).

"A um tão grande Sacramento veneremos, pois, prostrados; e ceda o antigo rito ao novo; supra a fé o que falta aos sentidos"
Explicação

As duas estrofes finais ("Tantum ergo") convidam à adoração corporal diante do Santíssimo, marcando a passagem simbólica dos sacrifícios do Antigo Testamento ("o antigo rito") para o único sacrifício definitivo de Cristo.

Contexto bíblico

Hebreus 10,9: "ele suprime o primeiro [sacrifício] para estabelecer o segundo".

Significado teológico

Ecoa Hebreus 10,1-10 sobre os sacrifícios antigos como "sombra" do sacrifício único e definitivo de Cristo, que os torna desnecessários.

Contexto histórico

Escrito por Santo Tomás de Aquino em 1264, a pedido do Papa Urbano IV, como parte do Ofício completo (com hinos, antífonas e leituras) para a nova festa de Corpus Christi, instituída para toda a Igreja depois do milagre eucarístico de Bolsena. As duas últimas estrofes do hino — "Tantum ergo Sacramentum" — destacaram-se cedo como cântico independente, cantado até hoje na Exposição e Bênção do Santíssimo Sacramento (ver a oração "Tantum Ergo" já publicada neste site); mas o hino completo, com suas seis estrofes, continua sendo entoado na procissão de Corpus Christi e na adoração da Cruz na liturgia de Sexta-feira Santa (num arranjo de melodia diferente, mais antigo).

Significado espiritual

O hino percorre, em ordem, o mistério inteiro da Eucaristia: a Encarnação do Verbo (estrofes 1-2), a instituição na Última Ceia (estrofe 3), a mudança real do pão e do vinho no Corpo e Sangue de Cristo — a transubstanciação — mesmo quando os sentidos não a percebem (estrofe 4), culminando no convite à adoração humilde diante do mistério que ultrapassa a razão (estrofe 5) e numa doxologia trinitária final (estrofe 6).

Recursos complementares

Catecismo da Igreja Católica §1373-1381 — a presença real de Cristo na Eucaristia📖 Lucas 22,19-20 — a instituição da Eucaristia na Última Ceia